A Família Burguesa Como Fábrica de Violência Masculina
Vamos direto ao ponto: violência masculina não cai do céu nem brota espontaneamente do DNA de alguns homens “naturalmente maus”. Aliás, essa ideia do “monstro nato” é extremamente conveniente para o sistema, não é mesmo? Afinal, se alguns homens simplesmente “nasceram assim”, a estrutura social está absolvida. Porém, a realidade materialista é bem menos confortável para quem lucra com o status quo.

A verdade incômoda é que a família patriarcal burguesa — aquela instituição sagrada que conservadores adoram defender — funciona como uma verdadeira linha de produção de homens emocionalmente desregulados, incapazes de processar sentimentos e treinados para exercer dominação. Consequentemente, estamos diante de um problema estrutural, não individual.
Neste texto, vamos destrinchar a cadeia causal entre trauma familiar, rigidez emocional e objetificação feminina. Além disso, examinaremos como o conservadorismo — essa obsessão doentia por “manter as coisas como sempre foram” — atua como cola ideológica que sustenta todo esse sistema de violência. Spoiler: não vai ser bonito.
Assassinos em Série: Produtos do Amor Familiar Burguês
O Trauma Como Matéria-Prima
Primeiramente, precisamos entender o que realmente produz a violência extrema. Estudos criminológicos demonstram algo fascinante: quatro em cada cinco assassinos em série analisados sofreram abuso severo na infância. Portanto, não estamos falando de “maçãs podres”, mas de crianças sistematicamente destruídas por suas próprias famílias.

O profiler do FBI Jim Clemente resume perfeitamente: “a genética carrega a arma, a personalidade a aponta, e as experiências puxam o gatilho”. Em outras palavras, o ambiente familiar traumático é o fator decisivo. Aliás, cerca de 90% das pessoas com Transtorno Dissociativo de Identidade relatam múltiplas formas de abuso infantil. Coincidência? Dificilmente.
A Rigidez Estrutural Como Catalisador
No entanto, o trauma não acontece no vácuo. A família disfuncional opera através da negação sistemática — aquele clássico “aqui não tem problema nenhum” enquanto a casa desaba. Além disso, a rigidez estrutural impede que membros busquem ajuda externa ou sequer reconheçam a violência como tal.
Dessa forma, a estrutura familiar rígida — tão celebrada pelo conservadorismo — cria uma opacidade institucional perfeita. Consequentemente, a agressão escalada internamente, sem fiscalização, sem intervenção. É o ambiente ideal para que o trauma floresça e produza indivíduos com profundos déficits emocionais.

Curiosamente, assassinos em série como Gary Ridgway, Ted Bundy e Richard Ramirez não matavam por vingança ou dinheiro. Em vez disso, o assassinato funcionava como mecanismo de coping — uma solução patológica para lidar com estresse, solidão e uma necessidade desesperada de poder e controle. Irônico, não? A família que deveria “estruturar” o indivíduo acaba produzindo monstros.
Homens Que Não Choram: A Fábrica da Repressão Emocional
Rigidez Familiar e Analfabetismo Emocional

Agora vamos ao segundo elo da corrente: a produção sistemática de homens emocionalmente analfabetos. Diferentemente do trauma extremo que produz serial killers, estamos falando aqui do “produto padrão” da família patriarcal — aquele homem médio que “não sabe lidar com seus sentimentos”.
Pesquisas demonstram que famílias disfuncionais operam através de hierarquias inadequadas e rígidas. Nesse contexto, a expressão emocional é proibida, especialmente para meninos. Portanto, raiva não pode ser discutida respeitosamente, tristeza é “coisa de mulherzinha”, medo é inadmissível. Consequentemente, esses indivíduos nunca desenvolvem ferramentas básicas de autorregulação emocional.
Clareza e Impulso: Os Déficits Mortais
A ciência é cristalina quanto a isso: homens com dificuldades em Clareza emocional (identificar o que sentem) e Impulso (controlar comportamento sob estresse) perpetram significativamente mais violência contra parceiras íntimas. Aliás, o déficit de Impulso também prediz coerção sexual.
Em outras palavras, se um homem não consegue identificar que está sentindo tristeza (porque aprendeu que “homem não chora”), essa emoção reprimida eventualmente explode como raiva. Ademais, se ele nunca aprendeu a processar angústia sem punição, o caminho de menor resistência é a explosão violenta. Simples assim — e absolutamente previsível.
Portanto, a família rígida não está apenas “sendo conservadora nos valores”. Na verdade, está ativamente produzindo bombas-relógio emocionais que vão explodir nas parceiras, nas filhas, nas colegas de trabalho.
A Mulher Como Objeto: Ideologia Patriarcal em Ação
Simone de Beauvoir Estava Certa (Obviamente)

Chegamos então ao terceiro elo: a objetificação feminina como estrutura ideológica que canaliza essa desregulação emocional. Como Simone de Beauvoir brilhantemente demonstrou, a mulher foi historicamente construída como o “Outro” — o ser definido pela negação, aquilo que o homem não é.

Ademais, sob o patriarcado capitalista, essa construção não é apenas ideológica, mas material. A Teoria da Dominação Patriarcal de Heleieth Saffioti deixa claro: estamos falando de uma estrutura de poder baseada tanto em ideologia quanto em violência concreta. Consequentemente, os papéis impostos à mulher — mãe, esposa, submissa — naturalizam sua inferioridade e legitimam a violência.
Objetificação Benevolente vs. Derrogatória
O Modelo do Processo Avaliativo da Objetificação revela algo perturbador. Quando a posição masculina está segura, mulheres que se conformam aos padrões são objetificadas de forma “benevolente” — elogios à aparência, olhares sexualizados, um falso senso de poder baseado na aprovação masculina. Em outras palavras, “você é linda, aceite minha admiração como inevitável”.

Porém, quando o poder masculino é ameaçado — digamos, uma mulher rejeita avanços ou desafia papéis tradicionais — a objetificação torna-se derrogatória. Homens com ideologias sexistas sentem-se no direito de usar hostilidade e insultos para subordiná-la e reafirmar dominação. Portanto, objetificação não é sobre desejo, mas sobre controle.
O Estresse da Masculinidade Frágil

Aliás, vale mencionar o “estresse da discrepância masculina” — aquela angústia de não ser “homem o suficiente”. Homens que aderem fortemente a normas masculinas tradicionais (agressividade, domínio, supressão de vulnerabilidade) apresentam risco aumentado de perpetrar violência íntima.
Dessa forma, convergem repressão emocional e ideologia patriarcal: o homem psicologicamente deficiente em clareza emocional encontra na objetificação feminina a ferramenta para aliviar sua angústia e reafirmar poder. A violência torna-se, portanto, a solução para dois problemas simultaneamente.
O Paradoxo Conservador: Protege Lá Fora, Mata Dentro de Casa
Religiosidade Como Controle Social

Aqui as coisas ficam interessantes — e contraditórias. Meta-análises demonstram que religiosidade e espiritualidade estão associadas à diminuição de agressão física e sexual interpessoal. Em outras palavras, conservadorismo religioso pode funcionar como fator de proteção contra violência… no espaço público.
O mecanismo é simples: controle social. A religião impõe códigos morais que desencorajam crimes com vítimas, reforçando empatia e normas sociais. Portanto, na esfera pública, o conservador obedece ao “não matarás”.
O Espaço Privado: Zona de Exceção
No entanto — e aqui está o pulo do gato — esse efeito protetor desaparece completamente no contexto de violência doméstica. Para violência de parceiro íntimo, religiosidade não apresenta correlação clara com redução de risco. Curioso, não?
A razão é devastadora: enquanto religiões ocidentais denunciam violência publicamente, endossam normas de dominância masculina nos relacionamentos íntimos. Consequentemente, a estrutura hierárquica — homem provedor, mulher submissa — neutraliza o código moral de não-violência.
Em outras palavras, conservadorismo cria uma dissociação esquizofrênica: forte controle moral na esfera pública, mas define a família como esfera privada regida por hierarquia interna rígida. Portanto, o patriarcado no lar não é visto como violência, mas como “ordem natural”.
A Dimensão de Classe: Patriarcado a Serviço do Capital
A Família Burguesa Como Unidade de Reprodução

Agora precisamos conectar os pontos sob perspectiva materialista. A família nuclear burguesa não existe por acaso — ela é uma instituição econômica fundamental para reprodução do capitalismo. Como Engels demonstrou em “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, a família monogâmica patriarcal surge historicamente para garantir transmissão de propriedade.
Entenda melhor o que quero dizer com “perspectiva materialista” lendo o nosso artigo sobre materialismo histórico dialético.
Consequentemente, a opressão feminina não é um “efeito colateral” lamentável, mas uma característica estrutural. A mulher como propriedade do homem garante reprodução da força de trabalho sem custo para o capital. Ademais, a divisão sexual do trabalho naturaliza a dupla jornada e mantém mulheres economicamente dependentes.
Conservadorismo Como Ideologia de Classe
Portanto, quando conservadores defendem “valores tradicionais” e “família estruturada”, não estão sendo inocentemente nostálgicos. Em vez disso, defendem ativamente a manutenção de estruturas que beneficiam a classe dominante. A família patriarcal rígida produz trabalhadores obedientes, mulheres subordinadas e, consequentemente, uma força de trabalho disciplinada.
Além disso, o conservadorismo — essa obsessão por “manter as coisas como sempre foram” — funciona como dispositivo ideológico para bloquear transformação social. Quando dizem “as coisas eram melhores antes”, referem-se a um passado mítico onde mulheres “conheciam seu lugar”, trabalhadores não se organizavam e hierarquias eram inquestionáveis.
Heteronormatividade e Disciplina Corporal
A heteronormatividade compulsória também desempenha papel crucial nesse sistema. A imposição de identidades de gênero rígidas não serve apenas para oprimir pessoas LGBTQIA+, mas para disciplinar toda a classe trabalhadora. Homens devem ser agressivos, provedores, emocionalmente reprimidos. Mulheres devem ser dóceis, maternais, disponíveis sexualmente (mas não demais).

Dessa forma, o patriarcado e a heteronormatividade funcionam como técnicas de controle social que fragmentam a classe trabalhadora. Homens aprendem a descarregar frustração de classe em mulheres, não em patrões. Consequentemente, a violência masculina opera como válvula de escape que preserva o sistema.
Síntese: Dois Caminhos Para a Violência Masculina

Caminho 1: Trauma Extremo
Finalmente, podemos estabelecer dois caminhos distintos para violência masculina severa. O primeiro — produção de assassinos em série — resulta de trauma extremo e abuso crônico. A disfunção familiar, operando através da negação e rigidez estrutural, permite que esse abuso persista sem intervenção.
Consequentemente, surgem déficits neurológicos e psicológicos profundos que se manifestam como busca desregulada por poder e controle. Portanto, violência extrema torna-se mecanismo de coping patológico. Neste contexto, conservadorismo ideológico é secundário à desorganização psíquica causada pelo trauma.
Caminho 2: Rigidez de Gênero
O segundo caminho — violência de parceiro íntimo — resulta de socialização rígida de gênero imposta pelo patriarcado. Essa rigidez produz repressão emocional, criando homens com dificuldade de clareza emocional e baixo controle de impulso.
Ademais, quando esse homem desregulado sente poder ameaçado, ideologia patriarcal fornece justificação estrutural para exercer controle através de violência e objetificação derrogatória. Portanto, o problema não é “alguns homens ruins”, mas um sistema de produção de violência masculina.
Implicações Revolucionárias: O Que Fazer?
Intervenção Não Basta — Precisamos de Transformação Estrutural
Certamente, intervenções focadas em trauma e desenvolvimento de regulação emocional são necessárias. Porém, sob perspectiva “marxista-feminista”, reformas pontuais nunca serão suficientes. Tratar sintomas individuais enquanto preservamos estruturas que produzem violência é como enxugar gelo.
Em vez disso, precisamos de transformação radical das relações sociais. Isso significa:
Destruir a família burguesa como unidade econômica: Socializar trabalho reprodutivo, garantir independência econômica das mulheres, eliminar transmissão privada de propriedade.
Desconstruir rigidez de gênero: Desafiar socialização que normaliza agressão masculina e submissão feminina. Ademais, isso exige reconhecer que gênero é construção social a serviço do capital.
Combater heteronormatividade compulsória: Libertar corpos e desejos das amarras impostas para disciplinar força de trabalho.
Deslegitimar estruturas patriarcais: Reconhecer que dominância masculina no lar não é “tradição”, mas violência sistêmica.
A Luta Feminista é Luta de Classes
Consequentemente, não existe liberação feminina sob capitalismo. Enquanto família patriarcal for necessária para reprodução da força de trabalho, mulheres permanecerão subordinadas. Enquanto homens da classe trabalhadora forem treinados para descarregar frustração em mulheres em vez de em patrões, violência persistirá.

Portanto, feminismo marxista não é “pauta identitária” que desvia da “verdadeira luta”. Pelo contrário, é componente indispensável da luta de classes. Afinal, como dizia Alexandra Kollontai, “a liberação da mulher só será completa quando houver uma transformação fundamental das condições de vida e do trabalho”.
Conclusão: Conservadorismo Mata, Literalmente
Voltemos então à questão inicial: famílias disfuncionais, rígidas e conservadoras produzem homens violentos que objetificam mulheres? A resposta é um retumbante sim, mas com nuances cruciais.
Trauma extremo produz assassinos em série. Rigidez de gênero produz agressores domésticos. Ademais, conservadorismo — entendido como defesa ideológica de estruturas patriarcais e heteronormativas — fornece justificação moral para ambos.
Curiosamente, conservadorismo pode até reduzir violência no espaço público através de controle social. Porém, simultaneamente, institucionaliza violência no espaço privado ao naturalizar dominância masculina no lar. Dessa forma, opera uma esquizofrenia moral conveniente: “não matarás” lá fora, “homem manda em casa” aqui dentro.
Finalmente, sob perspectiva materialista, a família patriarcal burguesa não é instituição a ser “recuperada” ou “restaurada”. Em vez disso, é estrutura de opressão que deve ser abolida. Consequentemente, construir sociedade sem violência masculina exige não apenas tratar traumas individuais, mas destruir as bases materiais e ideológicas do patriarcado.
Afinal, como você mantém sistema baseado em exploração sem violência? Spoiler: não mantém. Portanto, enquanto conservadores choram pela “família tradicional”, nós reconhecemos a verdade incômoda — essa instituição sagrada é, na verdade, uma fábrica de violência com selo de qualidade patriarcal.
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