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anacronautas do teutonismo virtual
Em
A evolução do neonazismo virtual brasileiro.
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Em 2007 a antropóloga, pesquisadora e ativista Adriana Abreu Magalhães Dias publicou pela UNICAMP um artigo chamado “Os Anacronautas do Teutonismo Virtual: Uma etnografia do neonazismo na internet“. Com o propósito de observar ambientes sociais da internet que abordam neonazismo virtual e afins pra entender os argumentos a favor da “raça ariana” dados pelos brasileiros, ou como ela mesma disse:

O propósito da investigação é, por meio da observação etnográfica das práticas e representações discursivas expostas em sites, portais, comunidades, fóruns, chats e listas de discussão, que abordam este tema, compreender que tipo de relação se constrói entre o espaço digital e a defesa da ideia de “raça ariana”, realizada por meus “nativos”.

Adriana A. Magalhães Dias, 2007

Imagem de Adriana Abreu Magalhaes Dias
Imagem: Carlos Moura/STF

Como resultado ela concluiu que esses grupos neonazistas interpretam o mundo de uma forma simbólica, ou seja, eles usam de mitos, narrativas e rituais pra criar uma forma muito particular de “identidade ariana“, o que ela chama de “teutonismo“.

Nesse post, eu quero trazer a análise pra mais perto de nós na linha do tempo, com efeito, quero entender onde estão os “anacronautas do teutonismo virtual” hoje, quase 15 anos depois.

Nosso histórico teutônico nada virtual

A ideia de que o fascismo não nos deixa é, particularmente, irritante. Se vocês leram o meu artigo sobre o Fascismo, vocês sabem bem que nós temos um passado bastante vergonhoso nesse tema. Ademais o ponto é que o integralismo como movimento morreu em 1937 com o golpe do estado novo, em 10 de novembro. E foi sepultado junto com Plinio salgado em 1975.

Imagem de Plinio Salgado.
Plinio Saldado – Líder dos Integralistas

Embora eu saiba que ainda tentam realizar uma espécie de “ritual necromante” a fim de trazê-los de volta, é importante notar que o ‘calcanhar de Aquiles’ do fascismo sempre foi o culto à personalidade. Por essa razão, não acredito que isso deva nos assombrar novamente.

Gif - Meme: Essa ação terá consequências - Life is Strange.
[INCERIR EFEITO SONORO AQUI]

Anos de pesquisa

O trabalho de Adriana não se encerrou em 2007. Aliás, dando sequência ao seu trabalho, ela identificou em 2015, 72 células neonazistas, divididas entre a surface e a deep web. Em 2022, esse número havia saltado para nada menos que 1117 células.

O modus operandi dela, por assim dizer, consistia em imprimir todo o material possível e denunciar sites ou perfis para derrubá-los imediatamente. E foi assim, em 2021, em uma dessas impressões arquivadas que Adriana encontrou uma carta do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro a uma dessas células.

Escrita em 17 de dezembro de 2004, época em que Bolsonaro exercia o mandato de deputado federal, a carta afirmava:

Todo retorno que tenho dos comunicados se transforma em estímulo ao meu trabalho. Vocês são a razão da existência do meu mandato.

Carta de Bolsonaro a célula neonazista.
Imagem: Reprodução/Web Archive

Neonazismo virtual hoje

Bolsonaro tomando copo de leite em live.
Bolsonaro tomando copo de leite em live – O copo de leite é um apito de cachorro neonazi.

Segundo o levantamento da Safernet, em maio de 2020 foram criadas 204 novas páginas de conteúdo neonazista, no mesmo período de 2019, 42 e em 2018, foram 28 novas páginas – Lembrando que estamos falando de paginas neonazistas, ou seja, são 28, 42 e 204 páginas a mais do que deveriam ter sido criadas.

A organização também apontou uma relação de causa e efeito entre os posicionamentos do, agora ex-presidente, Jair Bolsonaro e esse crescimento, aliás, além dessas páginas o Intercept Brasil diz ter encontrado mais de 35.000 usuários brasileiros em canais abertos de neonazi no Telegram, em uma excelente postagem, de Laís Martins, em agosto do ano passado. Ela apontou a falta de moderação e a total conivência da plataforma com relação a diversos crimes que vem acontecendo por lá.

Imagem de Ergon Cugler
Ergon Cugler

Os dados que ela se referiu tratam se da pesquisa de Ergon Cugler, do Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas da FGV. A pesquisa de Cugler abrangeu toda a América Latina, mas o Brasil – infelizmente – aparece como líder na pesquisa. Cerca de 64% de todo o conteúdo mapeado veio do Brasil. A análise dos dados também aponta que o pico das atividades se deu por volta de 2021, durante a pandemia de COVID-19, mas segue viva ainda hoje.

A catástrofe do neonazismo virtual

Em abril de 2024, o Telegram implementou uma funcionalidade básica, mas que segundo Cugler, “transforma a radicalização em produto”: os canais recomendados. Uma funcionalidade que, como em outras plataformas, sugere mais canais baseando-se no que o usuário já consome na plataforma. Se você usa o X – antigo Twitter – sabe como isso pode ser nocivo. Esse tipo de funcionalidade combinado com a falta de moderação da plataforma é, na minha opinião, o cenário perfeito pra catástrofe.

Imagem: Gif - Lixeira pegando fogo.
Brasil atual

A ideia de que o Brasil não tem salvação esteve na minha cabeça por muito tempo e, pra ser sincero, ela ainda não se dissipou completamente, mas existem pessoas assim como eu que não tem opção. Que, quando a coisa aperta, não podem fugir pros Estados Unidos – ajuda meu pai – e acreditem ou não, nós somos a maioria. Sempre que eu leio, ou vejo, alguma matéria ou artigo sobre neonazismo no Brasil eu penso “Cara, como isso é possível? A gente é latino kkkkk”, mas como a Adriana brilhantemente explicou, esses caras tem uma forma muito particular de “identidade ariana”, que de alguma forma muito louca inclui agente.

O levantamento da extrema-direita no mundo todo serviu pra eu me radicalizar, não sei se sou comunista nem nada assim, mas como a Nilce do Coisa de Nerd diz, “Quando todo mundo da uma passinho pra direita, você acaba ficando mais a esquerda”, o ponto é que o fascismo como movimento, a essa altura já deveria estar morto e enterrado. Concluindo, o neonazismo virtual, assim como real está, ainda hoje, vivo no Brasil e isso é muito… muito triste.

Bibliografia e fontes consultadas:

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